Os escritos do poeta André Jerico

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MATEMÁTICA DE MIM

eu sou a prova dos nove
sou todas as operações
sem decorrências lógicas

eu sou a tabuada da tabuada
a numérica literária
a pneumatemática de algebria lírica
que transformam zeros versos e alguns
na binária-vã-filosofia

sou bits arrebites e beatnicks
que pluralizam o um
e a prosódia da coisa nenhuma

sou o diagrama
da psicodélica ortografia
da psicoesférica prosopopéia
sou grafitagem por psicografia

sou eu o UM à esquerda
e meu ZERO é minha poesia

aNdRÉ  jErICo

HÁ DO VERBO HAVER

Qual é a dessa sala desocupada?
É um estio fora de estação?
Já não te bastam estes tuas coisas
e teus olhares de não sei não?

Se você quer realmente
andar por essa rua,
Vá!
suba bem alto e dê um jeito de…

S – S – A – A – A – L
T – A – A
A – A – R
!     !     !

Eu juro!
Ainda que esteja nua,
não fico pra te ver se estatalar.

Morra, se quiser.
Vá com Deus e não morra mais.
Nunca mais!
Mas não diga mais que não há.

Há!
Há vida no mar,
no ar e em suas ralés.
Há como amar!
Há luz!
Uma que te veste,
outras ao luar.

Há o medo que te adota.
Há o veneno que te aborta.
Há a palavra que te enforca.
Há o desejo que nunca te solta.

Há este anseio de gozar
quando a tua língua
na minha língua
se enrosca.

André Jerico

AUTO-EVOLUÇÃO

eu me olho assustado
não me vejo mais aqui
ao meu lado
vejo imagens outras
lembranças do futuro
anseios do passado
me vejo inocente
um mero ser
acriançado
vejo meus risos
meus choros
meus sonhos alados
porém já não encontro
de jeito algum
aquele cara estabanado
um tanto feio, bobo
e muito chato.

JeRiCo

TABLADO

Acreditei por tanto tempo que meu papel,
nessa vida, estava trocado.
E sofria…
Sofria pela ignorância da ignorância
de não me crer como sou.
Hoje nem me creio nem me desacredito,
nem entendo direito porque existo.
Permanecer aqui – vivo – é um acontecimento diário.
E se existo é porque eu existo e ponto.
Então me perco, me acho,
berro e me cego sem receios
Porque a minha essência, esta existência certa,
São todas as cenas escritas para mim.

Jerico

RECEITA DE TOLO

Para ser um bom artista engorde
na proporção de três idéias insanas
para cada pensamento sensato.
Não existe sensatez nessa estrela extravagante.

Para ser um bom artista emagreça
cortando na carne todos as trajes
de pré-conceitos, julgamentos e rotulações.
Não há um conceito perene nesse mundo viajante.

Para ser um bom artista não busque
os confetes, as serpentinas e os foguetes
e prepare-se para viver uma grande solidão.
Não existe um artista que não se alimente do silêncio.

Para ser um bom artista, esqueça!
Nunca tente ser um bom artista.
Artista que é artista é artista sem precisar ser.
Não há um só artista que não tenha sua arte como amante.

ÓTICA DE NÓS DOIS

Cada azulejo de minha vida
tem cem lampejos azuis
dos seus olhos, que insistem
em refletir atos falhos de nós dois
tatuados em globos oculares

São imagens arredondadas
de todas as nossas esquinas
e manias ainda não reparadas.

No entanto elas ainda sangram
os nossos desejos calados
por duas ou três opiniões
quadradamente equivocadas.

(aNDRÉ jERICO)

É!

É!
poeta é poeta
todo dia a toda hora
é pedro é maria é josé
é o que der pra ser
é o que é e o que não é!

É
a eterna agonia da idéia
é a idéia da alma e a alma da idéia
e toda uma idéia que gospe na cara
dá nó na garganta
susurra aos ouvidos
escorrega pelo peito
contorce a barriga
e caem de pé
qualé?

É!
são gatos malandros
com ginga samba e bicho de pé
andar sobre a corda bamba
no fio da navalha em pé
é coisa de Mané
de pedro maria e josé
é o que der pra ser
é o que é e o que não é!
e não é que é?

E é?

(André Jerico)

DÉMODÉ

Não me venha frequentar-me.
Não sou sua alameda,
Não sou seu bazar.
Nem mesmo uma loja
de conveniência.
Não sou sua matinê
ou sua sala de estar.

Você não cabe mais aqui,
Seu lugar é lá atrás
Ao lado das utopias
e do que não se usa mais.

Viu?

SÍNDROME DAS COISAS MAL RESOLVIDAS

Queria soltar a fala
em putas palavrões de
doer vagina
daqueles que dão angina
em mangueira de gás

Queria vomitar
os segredos pobres
de marré deci
e soltar o intestino
das palavras presas presas presas

Queria alegrar
toda a vida de todo mundo
com as putarias populares
e sentir nos ares os fedores
da liberdade de excreção

Queria estabelecer
regras que nunca serão cumpridas
e leis que não serão obedecidas
pra acabar com as autoridades
e a síndrome das coisas mal resolvidas.

(Jerico)

SOLITUDE

Tive medo de viver só
ainda que ventasse pra vida toda
e eu sentisse todas as presenças ao meu lado
ou somente os sustos de um pensamento,
ou dois, que me remetessem
a um futuro que eu não curto ter.

Ainda assim escolhi viver comigo,
embora eu me ache tão chato
e digno de indiferença,
já que é tão diferente essa minha forma
de eu distinguir o mundo, os medos, os olhos
e de eu beber o amor
tão cotidianamente só.

(jERICO)